OCUPANDO O LATIFÚNDIO ELETROMAGNÉTICO

Posicionamento público da Rádio Várzea em relação ao caso de Machismo

Após uma série de cobranças internas e externas, por sorte elas existiram, a Rádio Várzea Livre vem por meio desse comunicado se posicionar publicamente sobre um caso machismo ocorrido no ano de 2010 entre um casal de ex-membros do coletivo, conhecido como “caso Xavier”. Tal evento foi amplamente divulgado no campo da esquerda e reverbera até os dias de hoje.

Não nos cabe reconstituir os fatos. Apenas difundir uma autocrítica e algumas reflexões. Tendo em vista que um coletivo autogerido se constrói em movimento, ou seja, a partir de uma relação dialética entre reflexão e prática, não podendo ter medo de criticar a si mesmo e, sobretudo, receber criticas, julgamos necessário fazer a autocrítica dos erros da Rádio em alguns aspectos – não interessa se involuntariamente ou não – pelo fato de sermos um coletivo social, que ocupa um espaço público.

Seguem alguns problemas que xs integrantes do coletivo identificaram na forma de lidar com a questão. Tanto no ano de 2010, quando houve a publicização do caso, quanto no ano de 2011, após o escracho ao Xavier, a Rádio:

 

1- tratou a questão como de foro íntimo/pessoal, ou seja, privado;

2- buscou atuar no caso de maneira particular, pois acreditava que assim, estaria preservando os dois após a publicização pelo escracho;

3- não colocou a discussão sobre práticas machistas dentro do coletivo de forma pública, para estabelecer um debate sobre tal tema na Rádio;

4- através de seus integrantes, naquele momento, embora reconhecessem e apontassem o comportamento (inclusive para o próprio envolvido) como uma prática machista, trataram a questão como algo mais patológico do que social;

5- não houve uma reflexão por parte da Rádio, naquele momento, enquanto coletivo, sobre o cerceamento de espaço que a mulher agredida estava sofrendo na medida em que o agressor permanecia no coletivo sem sequer haver uma conversa pública do coletivo a respeito da situação.

 

Por mais que participassem da mesma lista de e-mails, e por vezes, se encontrassem em atividades da Rádio, a violência à mulher se consolidou na medida em que não houve nenhuma discussão publica sobre o assunto – ou seja, não houve reflexão sobre o constrangimento e sobre a violência que ela e, inclusive outras mulheres e até homens, pudessem estar sentindo com a presença do autor da prática machista, sem qualquer tipo de discussão e tomada de decisão pública sobre essa situação.

Pensou-se pouco sobre o constrangimento da agredida. Xs integrantxs da Rádio procuraram “cuidar” da questão do agressor (novamente, mais de uma maneira patológica do que social) e não houve essa mesma diligência com relação à agredida. Por mais que ele fosse um militante orgânico da rádio e ela não, essa foi uma postura errada por parte das pessoas que compunham o coletivo.

A partir do segundo semestre de 2012, quando Xavier voltou a frequentar as reuniões da Rádio:

 

1- o coletivo aceitou a volta dele sem problematizar e discutir tal questão;

2- continuou tratando com algo privado e não público;

3- continuou a não se posicionar publicamente.

 

Diante dos fatos constatados acima, esboçamos agora algumas reflexões por nós desdobradas.

Sobre o escracho: reconhecemos que enquanto os casos de machismo forem tratados de forma privada, a prática do escracho se colocará como uma das alternativas para se romper essa lógica. Reconhecemos, por consequência, a efetividade desse escracho no sentido de suscitar a urgência inapelável da discussão, problematização, luta e superação do machismo no campo da esquerda.

Não há, no entanto, uma posição consensual no coletivo sobre a legitimidade do escracho como prática política inquestionável. A denúncia é para nós, sem dúvidas, absolutamente necessária no sentido de expor a violência cotidiana sofrida pelas mulheres, de retirar do terreno do não-dito essa prática tão naturalizada em nossa sociedade. É fundamental também por provocar reflexões sobre a necessidade de autocrítica e amadurecimento político constante nesse campo da luta, e encorajar possíveis vítimas a se manifestarem. Porém, o escracho pode significar a reprodução de um sentimento autoritário de justiça, baseado numa lógica punitiva, persecutória, que se nega ao diálogo. A defesa da segurança das vítimas de violência deve ser prioridade. Todavia, não acreditamos que a exclusão de agressorxs dos espaços de convívio, por si só, represente justiça plena, reeducativa. Se queremos construir uma sociedade sem desigualdades de qualquer espécie, é necessário refletir sobre possibilidades de enfrentamento que vão além do ostracismo do agressor/infrator, fato que isola um problema, ao invés de resolvê-lo totalmente.

Reconhecemos que os erros cometidos nesse processo pela Rádio Várzea estão intimamente ligados com a descontinuidade da existência de espaços de formação no coletivo. Para ajudar a romper com o machismo é preciso que esses espaços existam – sejam reuniões, oficinas ou programas.

Mais uma vez reafirmamos nossa abertura e nosso desejo de contar com o apoio de coletivos que estão na luta contra o machismo para trocarmos ideias e experiências, pois sabemos das nossas limitações e também dos nossos desejos em superá-las. Lamentamos muito a todxs aquelxs que se sentiram agredidxs ou constrangidxs nesse período em que não houve posicionamento público do coletivo e reafirmamos que nossa disposição sempre foi e continuará sendo em avançar nas lutas contra machismo.

Temos a plena convicção de que esse comunicado não resolveu a questão do machismo no coletivo. A caminhada é longa e cheia de percalços. Não somos melhores porque estamos refletindo sobre nossas práticas e posturas. Não somos mais conscientes. Não se trata disso. É apenas uma reflexão. Os problemas continuam e estamos há tempos buscando enfrentá-los.

Lamentamos a demora no posicionamento público. O tempo político da Várzea foi mais longo do que a sucessão de acontecimentos.  O tempo político da Várzea se estendeu além do momento. Mas não temos certeza se poderíamos ter feito de forma diferente. O que sabemos é que não podemos mais permitir o machismo, em hipótese alguma. Diante de tudo isso, é preciso dizer, ainda, que foi o Xavier que se afastou da Rádio Várzea a partir de uma decisão pessoal.

Diante da necessária e efetiva publicização do caso, reconhecemos que não existe qualquer possibilidade de sequer discutirmos o retorno do ex- integrante ao coletivo sem que haja uma discussão pública sobre isso e um reconhecimento público dele sobre seus erros.

 

Saudações Livres, Rádio Várzea livre do rio pinheiros.107.7 FM

Reuniões de Quarta-feira às 18:00.

Se for pra somar então chega aí.

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